LEGADO 

 

A ORIGEM DA ESCRITA MUSICAL

Por Leila Sugahara

 

            Não é possível precisar o momento em que surgiu a escrita musical. O que se sabe é que só no Ocidente, a partir do séc. XI, se desenvolveu um sistema de escrita musical extremamente completo, tornando-se um elemento crucial para a prática musical. No entanto, isso não significa que a música ocidental seja superior a qualquer outra, visto que mesmo o sistema temperado, considerado uma grande conquista da música ocidental, já era conhecido por outros povos. Os indianos, árabes e chineses criaram sistemas musicais muito elaborados, que por serem baseados na memória ou na improvisação, se perderam.

            De acordo com o Dicionário Grove de música, os chineses já tinham um sistema de notação por volta do séc. III a.C. e o primeiro sistema alfabético é grego e provavelmente já existia em 500 a.C. O sistema alfabético consistia em atribuir uma letra a cada nota, mas os exemplos de música escrita por esse processo, nesse período, são quase inexistentes.  O que se conhece da notação alfabética, assim como a teoria musical grega, foi transmitida à Europa medieval através dos últimos escritores romanos, tais como Boécio, aproximadamente entre o final do séc. V ao séc.VI d.C., e também através dos Árabes. Boécio, escritor e estadista romano, concebeu um Sistema Perfeito de Teoria Musical a partir da teoria musical grega, com sua teoria dos tetracordes, a doutrina pitagórica das consonâncias, a matemática para racionalizar as consonâncias musicais e o princípio da divisão monocórdica. Seu tratado tornou-se a obra de teoria musical mais difundida na Idade Média. Outro sistema de notação encontrado nos textos bíblicos hebraicos do séc. VI d.C., é a ectofonética, que foi criado para facilitar o canto litúrgico, constituído por letras, pontos e formas representando a mão de um regente, cujo significado não é totalmente compreensível. As tradições grega e hebraica deram origem ao cantochão, conjunto de melodias vocais usadas nos rituais litúrgicos da Igreja Cristã que se desenvolveram no início da Idade Média, cuja versão mais conhecida é o Canto Gregoriano.

            O Canto Gregoriano, supostamente codificado pelo Papa Gregório Magno, no séc. VI, foi imposto a quase toda a Europa, numa versão revista no séc. VIII, pelo Imperador Carlos Magno, tornando-se a música oficial da Igreja Católica Romana. Foi no tempo de Carlos Magno que surgiu a lenda de que o Espírito Santo (sob a forma de uma pomba) ditava as melodias cantadas em Roma a São Gregório. Os monges colocavam sinais derivados dos acentos da linguagem indicando o movimento aproximado da voz (subida ou descida), acima dos textos, para poderem memorizar, já que as melodias eram transmitidas oralmente. Assim surgem as neumas. Portanto, neumas eram sinais de notação que representavam tipos específicos de movimento melódico e de modos de execução. Cada neuma pode representar qualquer coisa entre uma única nota e um grupo de quatro notas.

            Dois séculos depois, as neumas eram utilizadas na Igreja Oriental. O primeiro sistema neumático substancial do Ocidente data do séc. IX, em St. Gall, Suíça. Com o desenvolvimento do desenho das neumas, que por vezes era feito sobre uma linha de referência que indicava por exemplo: a nota fá, juntando-se outras linhas, surgia a pauta, cuja invenção é atribuída ao monge beneditino Guido d`Arezzo, no início do séc. XI. Seu sistema de notação em pauta foi amplamente copiado na Europa ocidental, coexistindo durante algum tempo com as notações neumáticas.

           

(Publicado na Revista Cenário Musical n.8 - Ed. HMP - Leila Sugahara).

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